quinta-feira, 30 de abril de 2009

A RUA DOS DOIS MUNDOS - CAP. I.

Num dia de Inverno em que o frio e a chuva eram presença assídua naquela cidade do norte, em que as pessoas só olhavam em frente e para o chão para fugirem do temporall o mais rapidamente possível, numa rua de habitações de classe média, dois seres pacientemente abrigavam-se na mesma árvore.Aliás, diga-se que se tratava de um par improvável, um gato branco e preto e um papagaio verde e amarelo. O felino, cujo nome de baptismo era Jeremias, estava sentado num ramo a observar os passantes e, quem olhasse para o bichano naquele momento ficaria com a impressão que no seu olhar se reflectia uma expressão de inteligência. Já o papagaio, simplesmente chamado de Norberto, palrava para o gato, como se lhe desse instruções sobre qualquer coisa.Aquilo que os dois bicharocos iam observando era assaz curioso, é que naquela tarde, gente muito diferente havia passado pela rua da árvore onde eles estavam.Desde um homem com quase dois metros que abordava todas as senhoras para vender um par de botas usadas e já com remendos, botas de senhora está bem de ver, até uma jovem que sem prejuízo do temporal, andava com uma indumentária de verão a cantar músicas populares brasileiras e que acabou por comprar as botas do grandalhão. Os dois bicharocos eram bem conhecidos ali nas redondezas, pois viviam com a menina Joana. Menina que apesar dos seus quase quarenta anos se dizia pura e virginal tal como havia nascido.Ora, este era um tema de discussão constante entre outros dois personagens daquela rua, O Sr. Vicente, dono do talho Sempre a Aviar, e o Sr. Rodrigues, mestre barbeiro e confidente, segundo ele, do Bispo a quem aparava a guedelha. Este segundo personagem dizia a quem o queria ouvir que a suposta virgindade da menina Joana era uma patranha,“porque com estes que a terra há-de comer, encontrei-a eu em Espanha amancebada numatenda de dois por dois com um sargento italiano e olhem meus meninos, a Joaninha gostava bem da companhia do militar, pois até houve uma noite em que a barraca veio ao chão com o bailarico dos dois!”. A este argumento de peso, ripostava o magarefe com o argumento definitivo de “que nem o exército americano todo inteiro haveria de ser capaz de corromper a virtude da menina Joana, pois sei eu de fonte segura, que ela jurou ficar virgem para sempre por ter sido abandonada pelo noivo no altar!”.Noivo, diga-se a título de curiosidade, que de acordo com os registos da políciaChilena havia passado os seus últimos 3 anos de presença naquele país, amancebado com um escritor de novelas eróticas que tinha ficha policial por ter tentado violar um travesti que o espancou com a sua moca, se é que me faço entender.Bom, a verdade é que o alvo constante destas discussões, por volta das 19 H passou por baixo da árvore abrigo dos bicharocos e com um gesto de mão chamou-os para dentro de casa ali mesmo em frente. Neste dia a Joaninha estava particularmente feliz, é que ia ter uma visita especial.

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